Never skip the intro, stay there!

De outro modo: a anulação e/ou a obliteração de toda e qualquer interrogação estéril acerca da Arte — a mais importante é a “originalidade” (fui eu que copiei primeiro!), seguida pela runner-up “virtuosismo” (até eu fazia pior!). Ou seja, sobre a destruição dialética de todos os binómios milenares: forma vs conteúdo, processo vs resultado, bom vs mau, novo vs velho, and so on. Proponho, ao invés, uma tripartição romantizada do “Real”: utópica, ainda que possível; insistentemente anunciada, jamais concretizável. Ou seja, o meu trabalho é uma sempiterna bande-annonce. É sobre estar constantemente em-progresso, ou seja, é sobre essa desculpa esfarrapada para nunca se acabar o que se começou, por isso interessa muito pouco (aka nada) onde/quando começou e onde/quando irá acabar. Por isso este texto — que é uma lista, ou seja, que é um texto —, está permanentemente em construção, e vai sendo constantemente modificado, corrigido, aumentado, reduzido, rasurado, re-configurado, re-contextualizado, não necessariamente a cada projeto, nem sequer a cada movimento mais ou menos paradigmático, mas ao sabor das alterações de humor, mudanças de opinião e demais desonestidades intelectuais do artista. O meu trabalho é sobre fazer listas. Mais: o meu trabalho é sobre ter ideias, sem nunca se importar com a sua execução materialização. Não é bem sobre estar sempre em processo; é mais sobre estar sempre em resultado. O projeto é sempre “melhor” que a possibilidade da sua execução. Ou seja, não existe filme, apenas o making of (desse mesmo filme), ou então o making of do making of do filme que, a existir, se espelha sempre em doppelgänger e em mise-en-abîme num universo paralelo. Uma Multiversidade™. Não existe, mas podemos falar sobre ele. Logo, existe. Por isso: o meu trabalho é sobre a adição abusiva (e infinita) de prefixos à palavra “realismo” — Novo-Realismo, Proto-Realismo, Sub-Realismo, Hiper-Realismo, Avant-Realismo, Meta-Realismo, Über-Realismo, A-Realismo, Alter-Realismo, Infra-Realismo, Inter-Realismo, Intra-Realismo, Re-re-re-Realismo [aka Realismo Gago]. Ele não é, torna-se. É sobre documentos, arquivos, categorizações, etiquetas, nomenclaturas, apresentações, presentificações, codificações e re-significações, dados em jogo e cartas no baralho, zonas de conforto (e magias a acontecer lá dentro), inside jokes e trocadilhos-para-os-amigos. É mais ontológico que antológico, o que significa que se interessa pouco pela History, quando sabe que o acesso mais fácil (e gratuito) é à his’story: a melhor –story a contar é aquela que conta a história do trabalho ele próprio. Autofagia? Sim. E silêncio e calma e feitiçaria… É um meta-trabalho: o método científico transformado em dogma artístico. É sobre ser fã; amar coisas, odiar coisas, idolatrar coisas, destruir coisas, following/unfollowing coisas, friending/unfriending coisas. Por exemplo: reality shows, terrorismo rural, páginas em branco, cadernos de notas, est(ética) IKEA, nouvelle cuisine, schlager conceptual, extreme makeovers, teen culture, happy hardcore, finnlosofia, folklore progressivo, power ballads, weirdismo escandinavo, tendências foodie’das, cultura mashup, ficção científica, geografia emocional, teorias da conspiração, cosmologias escatalógicas, cerimónias de abertura, dinner parties, birthday parties, Eurovision parties, geo-political parties, rave parties, techno-tolices… — o Stuckismo dos 90s corrompido pelo Idiotismo™ dos 00s. Anti-tribunalização da arte (isso é arte?) + Anti-medalhização da arte (que valor tem essa arte que tu dizes ser arte?). Desenhando uma linha que separa criação de revelação, o meu trabalho cria um binómio irresoluto, logo, o meu trabalho é sobre apagar a linha que separa criação de revelação. Seguindo: o meu trabalho é sobre a criação/revelação de um (ou mais) -ismos a cada novo projeto. Ou a criação de um dispositivo petulantemente insuflado de teoria como manobra de charme para chamar a atenção. Ou sobre a Preguiça™ como novo avant-garde (2012), ou o Meaningless™ como novo avant-garde (2013), ou o Lame™ como novo avant-garde (2014), ou a Vergonha Alheia™ como novo avant-garde (2015), ou o Aborrecimento Atroz™ como novo avant-garde (2016), ou o Azeiteiro Hipster™ como novo avant-garde (2017), ou o Mais-do-Mesmo™ como novo avant-garde (2018), ou sobre a previsão, sempre com duas seasons de antecedência, do próximo Pantone™ do vanguardismo extemporâneo — Fascion Dasein (2019). Ou: being there, doning that. O meu trabalho é sobre elevar a Arte à categoria de Gastronomia (o contrário já foi feito). É ciência. Experiencial e experimental. É sobre dizer a verdade, mesmo que através de mecanismos de coerção. Sistemas de vigilância, invasão de privacidade, curadoria ditatorial, e-manifestos, pan’ópticas do utilizador, alter-egos e altercações. É sobre chegar à arte sem ser através da Arte. Ou então chegar à Arte sem ser através da arte. Não é político, nem social, é da comunicação social, e da política social, e da sociologia da informação, e das doutrinas sociais e políticas, do McLuhan, do Bourdieu, do Saussure, do Barthes, do Jakobson, do Wells. É “social”, mas em modo sociopata. É “político”, mas em modo demissionário. Não é poético, portanto. É jornalístico. Responde às perguntas certas, mesmo quando por linhas tortas — O quê? Quem? Quando? Onde? Como? Porquê? —, mas sem esperar respostas. Ou respondendo com novas interrogações: Para quê? Por isso é que o trabalho é sobre trickery & fraud, apropriações e confiscações, re-interpretações e re-enactements, readymades e outras tipologias do prêt-à-porter artístico, roubando descaradamente ao Acconci, ao Adorno, ao Baudrillard, ao Beckett, ao Benjamin, ao Danto, ao Debord, ao Derrida, ao Duchamp, ao Foucault, ao Godard, ao Hegel, ao Hsieh, ao Huxley, ao Huyghe, ao Kosuth, ao LeWitt, ao Matta-Clark, ao Melville, ao Nauman, ao Orwell, ao Pessoa, ao Rancière, ao Schwitters, ao Sloterdijk, ao Smithson, ao von Trier, ao van Sant, ao Vila-Matas, ao Virilio, ao Wagner, ao Warhol, e ao Žižek A ordem é alfabética e masculina; não roubo nada às artistas mulheres . So, why join the navy when I can be a pirate? Em uníssono platónico com Hirschhorn, o meu trabalho diz: “O melhor não é necessariamente bom”. Até hoje, todas as coisas “melhores” que vi não eram lá muito “boas”… O meu artista favorito, contudo, é o Mark Dion, não pelas coisas que faz, nem sequer pelas coisas que diz, mas por ser um freak da hermenêutica corrosiva. Obsessiva e compulsivamente. Um trabalho de re-escrita das mesmas histórias de sempre, mas efabuladas por uma criança nerd que nunca cresceu. O meu trabalho não é sobre linguagem; é sobre a linguagem “da linguagem”. Ou seja: limpeza semântica — conceptual não é um estilo decorativo, contemporâneo não é uma corrente estética, performativo não é o adjetivo que qualifica o que é da performance, teatro não é sinónimo de história do teatro, arte não é sinónimo de cultura, performer não é sinónimo de desportista, a forma nem sempre segue o conceito (abençoada seja!) e less, temos pena, é mesmo só less. O meu trabalho tem pena. É sobre as políticas da humilhação, do esquecimento, do desprezo, do silenciamento, da censura, da ignorância, do sectarismo, da ostracização, do blame the victim. É sobre o Bullying™ como velho avant-garde. É sobre a sobrevivência do mais fraco. Sobre procrastinação. A solidão como ato de resistência. O isolacionismo conceptual. Só é possível “em teoria”. Ou seja, o meu trabalho é possível, em contra-corrente às confusões higiénicas/higienizantes entre Arte e Turismo, Arte e Desporto, Arte e Cultura (e Património Cultural), Arte e Estética, Arte e Design, Arte e Museologia, Arte e História de Arte, Arte e Crítica da Arte, Arte e Curadoria, e Artesanato, e Puericultura, e Espiritualidade, e Terapia, e Pedagogia, e Engenharia, e Psicologia, e Economia, e Propaganda, e Merchandising, e Empreendedorismo, e Serviço Educativo, e Programação Artística enquanto manipulação motivacional à la TED-talk. Ao menosprezar as confusões supra-citadas, o meu trabalho confunde-se com elas. O meu trabalho não é “conceptual”. O meu trabalho é sobre conceptualização, ou seja, o meu trabalho é conceptual. E indisciplinado. E desformatado. E cínico. É altermoderno e pós-relacional. É sobre a ética/ótica do observador: pré-Internet, pré-verdade e pré-dramático. Não é completado pelo observador, é realizado a 100% (menos um bocadinho infinitesimal) pelo observador. Sorry, Dude’champ… . É sobre encontrar pontos num mapa onde 3 ou mais países se encontram. Um Museu-Mapa, precário e imaginário. Ou imaginário, logo precário. É sobre cozinhar. Comida, apenas. Ou seja, é sobre desprezar todas as metáforas, sobretudo as litter’árias. Sobre a criação (peri-)patética de trademarks, pelo menos uma por Projeto™; isto é, sobre a edificação de uma Macro-Ironia que opera criticamente sobre os conceitos de copyright, propriedade intelectual, pirataria, e liberdade, ou Liberdade™. Ou a construir prisões sem paredes. Ou a fritar pescadinhas de rabo na boca (com arroz malandrinho…). Mas também constrói títulos que são trademarks. Títulos™ — capa, contracapa e no meio folhas em branco. A responsabilização máxima do espetador. Bullshit conceptual. Ou para uma definição histérica (= histórica + estética) de Tretologia™. No meu trabalho, o título diz tudo. Mas também faz tudo. Apresenta tudo. É tudo. O meu trabalho é o título do trabalho — Trabalho™. Também é sobre memória. Melhor dizendo, é sobre o processo, simultaneamente cognitivo e co-genitivo, de me lembrar. Por outras palavras, a arte que (se) nega a arte através da arte. Kant after Duchamp after Rogério Nuno Costa. O meu trabalho é uma maionese modernista. Só que talhada. Pós-traumático renascentista. Rococó contemporâneo. Nasceu em 1917, o meu trabalho. Que é como quem diz, é um nado-morto. Rogério Nulo Costa. É sempre sobre o Fim™, porque nunca deveria ter nascido. Enunciação. Apenas. Ou então aparição: Duchamp, independência da Finlândia, Nossa Senhora de Fátima. É uma cena de crime, o terreno mais fértil para o nascimento de Ideologia. Contudo, o meu trabalho é sempre uma desculpa para algo que “precisa de” ser feito/dito, o que não tem nada a ver com Arte, ou arte, ou, … É um PRETEXTO, isto é, algo que acontece ANTES do -texto. Interrupção voluntária para quem me continua a ler, (leia-se), para quem acredita no Amor™: “Obrigadinho!”   É altamente colaborativo, mas nunca numa atitude pacifista ou consoladora. É uma batalha, às vezes uma guerra oblíquia e duracional. Slogans roubados, colados em pastiche, devolvidos depois com um indolente from scratch. O meu trabalho é Politicamente Corrécio™. É sobre medo, arrogância, oportunismo e corrupção. É sobre chamar os Beuys pelos nomes: somos todos artistas o c******! (lê-se: caralho). É sobre tudo o que não pode ser dito. I prefer not to… E é sobre ser feliz. A sério! Ou seja, nem é real, nem político; é Realpolítiko. O meu trabalho é (sobre)viver. Tem encontros, segredos, cartas de amor, home cooking, acontecimentos inesperados, storytelling, rock alternativo, textos lindos sobre as coisas que penso quando lavo os dentes, a beleza do efémero, do precário e da fragilidade … Enfim, tudo muito teatro municipal. Só que ao contrário. A superioridade da ética. A terceira coisa. A estética da Estética. Às vezes convoca a intimidade, a abstração, a visceralidade, o que está para lá de, o aqui-e-agora, o quotidiano e a nudez (circa 1999-2012), mas sempre através de um exercício meramente cosmético e exibicionista. O meu trabalho é, portanto, sobre egocentrismo, mas também sobre egoperiferalismo. É sobre todas as pessoas com quem já dormi. Por tal motivo, ele é auto, é bio e é gráfico, mas nunca autobiográfico. É sobre a universalização do particular e sobre a particularização do universal. Back and forth. É sobre a importância não do contexto, mas da contextualidade. Ponto de fuga, disfunção retiniana, alteração subliminar de foco. O meu trabalho é Espe(cta)cular™, uma stand-up tragedy: Primeiro nega. Depois aceita. No fim agradece = Terceira Via, portanto. Ou sobre (a arte de) fazer uma vénia ao Ocidente, sem com isso virar o rabo ao Oriente. Dar uma no cravo e outra na ferradura. Mas ao mesmo tempo. Nem sim nem sopas. Invisibilidade auto-infligida. É por isso que o meu trabalho não tem “especificidade”, ainda que seja altamente “específico”, e “especificação” é um dos seus temas prediletos. É a-genérico, porque não faz o (vosso) género. Faz espécie. Porque não sendo “especializado”, refere-se às políticas da especialização, ao aZeitgeist™ das trendências euro-tópicas: Anti-Anti-Cultura Pop, ® du Temps, Viralidade, Inter(in)disciplinaridade, LoFi -Sophy, Fim da História, Parques Humanos, Finlandização, Pedagogias Radicais, Petabyte Age, Criatividade Não-Humana, Novo Medievalismo, Proto-Academia, Séculos Vinte-e-Um. O meu trabalho é sobre palavras. Logo, é mind-specific. Tem a mania. (Que) É nouveau. Sobre o pretensiosismo do loser. Para uma arte underdog. Também é portátil. Bué shareable. Bué spreadable. Bué lavanda. Xennial em crise de meia-idade. Playbacked, lip sync’ed, autotuned. É Anti-Cenita™. É sobre a Pop/Art a comer-se a ela própria (2 Many Djs foreva). O trabalho come-se a si próprio porque não é material. É uma cloud. É a extended version, nunca a radio edit, de um one hit wonder que resiste há 40 anos no número #101 de um qualquer TOP 100. A fazer o mesmo espetáculo desde 1978… Em suma: sobre fazer da “prática artística” (lol) um research field (mega-lol), mas sempre enquanto dilettante, amando e odiando ao mesmo tempo, confrontando a cultura dominante, desafiando a percepção e a convenção, desmistificando a autoridade. O meu trabalho não produz trabalho; olha para ele. Doppelgängster™. Sobre o mau gosto, a inconsequência, o terror, o nacional-parolismo, a banalidade, a poo’esia, o suégue, o guna gay, a vida portugueza, o novo-pobre, a selfilosofia. Uma pièce de résistance numa pista de dance: bate a mais de 150 BPM porque é techno, mas não é lógico. É auto-referencial, é não-hierárquico, é über-moderno, é structureless, é heterotópico, é rizomático, é taxonómico, é low-brow, é horizontal e é infinito. O meu trabalho é matematicamente intemporal. É sempre sobre o meu Nome, e as infinitas possibilidades de alguém como eu dizer: “O meu trabalho é sobre o meu trabalho”. Resumo da matéria Dada: o que é que ainda falta dizer, quando já tudo foi dito?

Rogério Nuno Costa

Setembro 2018

Never skip the intro, stay there!

Texto iniciado em 2011 e publicado, em progresso, no site www.rogerionunocosta.wordpress.com. Apresenta-se enquanto exercício radical de “escrita performativa” com o objetivo de apresentar uma espécie de artist statement, só que disfuncional e inoperativo. Pela duracionalidade, pela extensão/exaustão, pela incongruência e contradição. É um objeto em permanente curto-circuito lógico: apropriando “Bartleby & Cia.” (Vila-Matas), não há texto, só notas de rodapé. Tem sido utilizado em contextos académicos e de investigação desde 2015, não enquanto objeto ensaístico (no limite, é “sobre” nada, “diz” nada…), mas enquanto prática. Foi, nesse sentido, partilhado com os participantes do Recurso, como exemplo de uma escrita ENQUANTO performance (por contraponto a uma escrita PARA performance). A versão que aqui se publica, radicalmente alterada para o efeito, é a folha de sala de um espetáculo que nunca vai acontecer.