LINGUA FRANCA


Para além do BAILE BREGA, a minha contribuição para o GTM – Gaia todo um mundo (Fórum Internacional de Gaia) estendeu-se à criação de um laboratório experimental de interseção entre as artes visuais, a literatura, a performance e os estudos pós-coloniais. Intitulado LÍNGUA FRANCA, o projeto propõe a criação e a apresentação de duas performances, em regime de encomenda, da autoria de dois artistas Portugueses afro-descendentes (Vanessa Fernandes, dia 18, e AF Diaphra, dia 19) cujas práticas artísticas se desenvolvem em torno da relação da performance com o corpo e a palavra. O laboratório propõe questionar as políticas de visibilidade, os lugares de fala, a memória colonial, o feminismo, as políticas da memória, a história biopolítica e o papel preponderante da Língua na construção de hegemonias colonialistas. As duas performances convocam leituras anti-colonialistas, anti-racistas, anti-sexistas e anti-classistas, ao mesmo tempo revelando a forma como essas questões estão a ser trabalhadas por artistas negros em Portugal. Ambas as peças serão apresentadas na Sala Jorge de Sena da Biblioteca Municipal de Gaia, seguidas de conversa moderada por Marta Lança, investigadora do coletivo Buala, portal de crítica e documentação de questões pós-coloniais e transatlânticas, com incidência na relação entre Portugal, África e Brasil, e seus contextos sócio-culturais particulares. Um debate que promete combater preconceitos raciais e sexuais, articulando questões de género e raça, e denunciando injustiças.

Vanessa Fernandes | A artista afro-descendente Vanessa Fernandes, atualmente a residir em Vila Nova de Gaia, vai partir de um projeto “work-in-progress” que se encontra a criar em parceria com Ivo Reis. O título da performance, “Chumbo e Algodão”, remete para dois materiais historicamente ligados à escravatura e ao tráfico humano, contribuindo para um exercício onde a artista tenta encontrar respostas às suas reflexões sobre mestiçagem, afrodescendência, paisagem do corpo, patchwork cultural e ancestralidade. A narrativa fragmentada da história de um corpo inventado; um corpo híbrido, transladado entre viagens, dissecado, poli-linguístico e transcultural. Recorrendo à dança/performance e à arte digital, a artista apresentará em Gaia a estreia absoluta de uma nova versão de “Chumbo e Algodão”, à qual se seguirá uma conversa com a artista moderada por Marta Lança, investigadora do coletivo Buala.

AF Diaphra | Alexandre Francisco Diaphra é um reconhecido beatmaker, MC e artista multimedia Português, com ascendência Bissau-Guineense e Angolana. O seu trabalho pluri-disciplinar mistura os ritmos da África Ocidental com a poesia, o jazz e o hip hop, em performances psicadélicas que misturam a palavra dita, rap’ada e cantada. As narrativas estéticas de AF Diaphra transportam uma reflexão poética sobre a busca de uma identidade em conexão com a cultura Yoruba e “saudade” Portuguesa, propondo um retrato ao mesmo tempo íntimo e universal de um homem na sua relação com um contexto multicultural e diaspórico. A partir do projeto de performances interativas intitulado #FolhasBrancas, que o artista desenvolve atualmente, AF Diaphra irá criar um trabalho inédito propositadamente para o Forum Internacional de Gaia. À apresentação da performance, em estreia absoluta, seguir-se-á uma conversa moderada por Marta Lança, investigadora do coletivo Buala.